{"id":3381,"date":"2011-10-24T00:18:03","date_gmt":"2011-10-23T22:18:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lacanquotidien.fr\/blog\/2011\/10\/jesus-santiago-o-biografo-e-sua-gramatica-do-insulto\/"},"modified":"2011-11-04T00:29:58","modified_gmt":"2011-11-03T23:29:58","slug":"jesus-santiago-o-biografo-e-sua-gramatica-do-insulto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/2011\/10\/jesus-santiago-o-biografo-e-sua-gramatica-do-insulto\/","title":{"rendered":"J\u00c9SUS SANTIAGO &#8211; O bi\u00f3grafo e sua \u00ab\u00a0gram\u00e1tica do insulto\u00a0\u00bb \/ Le biographe et la \u00ab grammaire de l\u2019insulte \u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.lacanquotidien.fr\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Le-biographe-et-la-%C2%AB-grammaire-de-l%E2%80%99insulte-%C2%BB-Par-J%C3%A9sus-Santiago.-Version-fran%C3%A7aise..pdf\">Le biographe et la \u00ab grammaire de l\u2019insulte \u00bb Par J\u00e9sus Santiago. Version fran\u00e7aise.\u00a0 <\/a><span style=\"color: #666699;\">\u2190Pour consulter l&rsquo;article, veuillez cliquer sur ce lien.<\/span><\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\">\u2022<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me importante esclarecer que a pr\u00e1tica da escrita, inerente \u00e0 \u00e2nsia de verdade do texto biogr\u00e1fico, tende a confluir, no caso espec\u00edfico da vida de Jacques Lacan, no que se pode designar a \u201cgram\u00e1tica do insulto\u201d. O trabalho da escrita do bi\u00f3grafo pode resvalar numa pol\u00edtica da letra, em que o sintoma do sujeito se torna mat\u00e9ria dispon\u00edvel para essa \u201cgram\u00e1tica\u201d. Nesse ponto de vista, o insulto adquire uma l\u00f3gica pr\u00f3pria que o discurso anal\u00edtico n\u00e3o pode ignorar. \u00c9 preciso, portanto, considerar o insulto uma opera\u00e7\u00e3o discursiva de nomea\u00e7\u00e3o que n\u00e3o faz economia do rito institucional, em que ela se consuma. N\u00e3o h\u00e1 ator social que n\u00e3o pretenda, na medida de seus limites, conferir consist\u00eancia a seu mundo e tanto mais profundamente quanto seu ato de nomea\u00e7\u00e3o \u00e9 reconhecido\u00a0 \u0336\u00a0 isto \u00e9, autorizado. O bi\u00f3grafo \u00e9, pois, uma das figuras de autoridade dessa opera\u00e7\u00e3o de nomea\u00e7\u00e3o, cujo m\u00f3vel \u00e9 o uso da efic\u00e1cia performativa do discurso. Na pr\u00e1tica do texto biogr\u00e1fico, o poder das palavras confunde-se com o poder delegado ao porta-voz da produ\u00e7\u00e3o escrita, poder inerentemente articulado ao ideal biogr\u00e1fico de dizer toda a verdade sobre a vida de algu\u00e9m ilustre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O insulto exibe, assim, uma inten\u00e7\u00e3o performativa, pois, como efeito de discurso, pertence \u00e0 classe dos atos de institui\u00e7\u00e3o e de desinstitui\u00e7\u00e3o, mais, ou menos, fundado socialmente, em que o bi\u00f3grafo age no pr\u00f3prio nome, mais, ou menos, reconhecido socialmente, cuja finalidade objetiva explicitar que um sujeito possui certa propriedade, certa caracter\u00edstica, o que, por sua vez, significa que o alvo de seu discurso se comporta, ao longo de sua vida, em conformidade com a ess\u00eancia social que lhe \u00e9, desse modo, imputada. Segundo prop\u00f5e Jean-Claude Milner, de um modo bastante esclarecedor, em seu \u00faltimo livro, <em>Clart\u00e9s de tout<\/em><em>: de Lacan \u00e0 Marx, de Aristote \u00e0 Mao<\/em><em>,<\/em> atribuir a algu\u00e9m determinada propriedade \u00e9 algo que se diz sempre na segunda pessoa, como no caso do nome judeu que surge, na boca do antissemita, como um insulto<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Diferentemente do que ocorre com os \u201cnomes ordin\u00e1rios\u201d, que se dizem sempre na terceira pessoa, o que se comprova pelo fato de se poderem pronominalizar,\u00a0 ou seja, o sintagma nominal pode ser substitu\u00eddo por um pronome\u00a0 \u0336\u00a0 por exemplo, comer<em> o livro<\/em> corresponde, corretamente, a com\u00ea<em>-lo<a title=\"\" href=\"#_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 os \u201cnomes pr\u00f3prios\u201d<em>,<\/em> ou \u201cnomes de batismo\u201d,<em> <\/em>que s\u00e3o essenciais a cada ser falante, ainda que este receba seu nome, quando ainda n\u00e3o fala. Trata-se, portanto, de um nome que se diz na segunda pessoa e, somente em seguida, por efeito do processo temporal de forma\u00e7\u00e3o do eu, se torna um nome que se diz na primeira pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu disse antes, o insulto resulta de um efeito de nomea\u00e7\u00e3o, visto que se constitui um nome que tamb\u00e9m se diz na segunda pessoa, tal como o \u201cnome pr\u00f3prio\u201d. \u00c9 preciso ressaltar, no entanto, que, ao contr\u00e1rio do \u201cnome de batismo\u201d, que busca nomear, no ser falante, o que lhe \u00e9 singular e \u00fanico, o insulto pretende destituir, do ser falante, o que ele tem de \u00fanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim sendo, pode-se concluir, com Milner, que o insulto que se enuncia na narrativa do bi\u00f3grafo \u00e9 uma figura emblem\u00e1tica do que \u00e9 um \u201cantinome pr\u00f3prio\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn3\"><em><strong>[3]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em>A ast\u00facia discursiva do bi\u00f3grafo consiste, portanto, em ser capaz de fraturar e fracionar o nome pr\u00f3prio e de, por essa via, desfigur\u00e1-lo em fun\u00e7\u00e3o das diversas express\u00f5es do que vem a ser um \u201cantinome pr\u00f3prio\u201d<em>. <\/em><\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><span style=\"color: #333333;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\"><span style=\"color: #333333;\">[1]<\/span><\/a>MILNER, J.-C.<em> Clart\u00e9s de tout: de Lacan \u00e0 Marx, de Aristote \u00e0 Mao<\/em>. Paris:Verdier, 2011.\u00a0 p. 40.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><span style=\"color: #333333;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\"><span style=\"color: #333333;\">[2]<\/span><\/a><em>Ibid<\/em>., p. 40<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\"><span style=\"color: #333333;\">[3]<\/span><\/a><em>Ibid<\/em>., p. 41.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"author":9,"featured_media":3453,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[561],"tags":[],"class_list":["post-3381","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-portugues"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3381"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3381\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3397,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3381\/revisions\/3397"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3453"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lacanquotidien.fr\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}